Emanuelle e gli Ultimi Cannibali  - 1977

O cinema italiano de gênero sempre foi marcado pela ousadia de seus diretores e roteiristas, ou se preferir, pela cara-de-pau mesmo. Aqui temos um curioso crossover de dois filões cinematográficos que andavam em voga pelo país da bota: os filmes de canibais e os filmes da Emmanuelle. Com vocês, “Emanuelle e gli Ultimi Cannibali” ou, se preferir, “Emanuelle and the Last Cannibals” (1977).


Bom, tá certo que não é exatamente a francesa Emmanuelle do filme de 1974, dirigido pelo Just Jaeckin, estrelada pela mítica Sylvia Kristel, e que por sua vez era inspirado no romance autobiográfico de Emmanuelle Arsan - tanto que aqui a grafia é levemente diferente, com um “m” a menos, ficando apenas “Emanuelle”, pois assim se consegue fugir do direito autoral (como se os  picaretas produtores italianos realmente se importassem com isso) e enganar o espectador menos atento.


Esta Emanuelle aqui faz parte da série de filmes estrelada pela grande Laura Gemser, uma linda negra nascida na Ilha de Java, na Indonésia, e hoje é considerada uma das rainhas do cinema de gênero europeu. Embora tenha feito uma participação em “Emmanuelle 2: L’antivierge”, continuação oficial do original, aonde participa de uma cena de lesbianismo com a Sylvia Kristel, ela ficaria famosa mesmo era como a “Black Emanuelle”, protagonizando oito filmes desse filão não oficial. A maioria dirigida pelo grande Joe D’Amato.


O filme já começa mentindo ao afirmar que é baseado em fatos reais. Depois disso, é pura dinâmica; o cenário inicial é um hospital psiquiátrico onde nossa heroína está infiltrada como paciente para uma reportagem. Para isso ela usa uma boneca com uma câmera fotográfica escondida, e cada piscada da boneca corresponde a um click da máquina. Enquanto Emanuelle caminha pelos corredores tirando fotos de pacientes, entra em cena uma enfermeira ferida, sem um bico do seio. Ela tinha sido atacada a mordidas por uma paciente. No meio do caos causado pela enfermeira ferida, vemos o próprio diretor Joe D’Amato numa ponta como médico.

Joe D’Amato (1936-1999) era o pseudônimo mais famoso do italiano Aristides Massaccesi. Dirigiu quase duzentos filmes, muitos misturando sexo e violência. Entre suas obras mais famosas estão "Emanuelle in America", "Antropophagus" e "Buio Omega". No fim de carreira estava dirigindo filmes pornográficos direto para o mercado de vídeo, muitos estrelados pelo astro pornô italiano Rocco Siffriedi. Além de diretor, era fotógrafo, inclusive dos filmes que ele próprio dirigia. No setor de fotografia, ele assinava com seu nome de batismo mesmo.


Claro que a protagonista vai investigar de perto isto. Ela vai até o quarto da paciente raivosa (Dirce Funari que trabalhou em “Porno Holocaust” também do mesmo diretor), e encontra a moça numa maca, amarrada com camisa de força. Emanuelle, então, acalma a garota com uma relaxante masturbação, e nisso a nossa repórter descobre que a tal moça carrega no ventre uma estranha marca. Não demora muito ela descobre que a paciente veio da floresta amazônica, perto do Mato Grosso, para ser mais exato, e que a marca no ventre é o símbolo utilizado por uma antiga tribo antropófaga, dada como extinta.

Emanuelle então entra em conta com o Professor Mark Lester (Gabriele Tinti, que foi casado com Laura Gemser de 1976 até sua morte em 1991, e participou de alguns filmes da “Black Emanuelle”, sempre em papéis diversos), que lhe mostra uma filmagem de canibais africanos, com imagens de decapitação, castração e um moço se deliciando comendo olhos. D’Amato usaria esse recurso de pseudosnuff de uma forma melhor e mais pungente no clássico “Emanuelle in America” realizado um ano antes.


Depois de convencer seu editor, e duas ceninhas de sexo simulado, temos nossos protagonistas (Emanuelle e o professor) já no caminho para a selva. Eles unem à sua expedição uma freira (Annamaria Clementi) e a bela Isabelle, interpretada pela loirinha Mónica Zanchi, que no mesmo ano repetiria a dobradinha com Laura Gemser em "Suor Emanuelle", sob a direção de Giuseppe Vari, que se passa num convento, ou seja, Emanuelle atacando de nunsploitation (o famigerado subgênero do exploitation com freiras).

No caminho, a expedição ainda encontra um casal de caçadores de diamantes, formado pelo marido impotente (Donald O’Brien) e a esposa fogosa (Nieves Navarro). Está pronta a trupe para serem atacados pelos terríveis canibais.


No fim das contas, com várias baixas e Isabelle de prisioneira, Emanuelle salva o dia se passando por uma deusa da tribo, enganando assim os selvagens canibais.


Os filmes de canibais começaram com “Il Paese del Sesso Selvaggio”, obra de Umberto Lenzi, em 1972, que contava  a história de um europeu que está em Bangkock, e, após cometer um crime, resolve fugir para os confins da selva tailandesa. Lá acaba capturado por uma tribo local, mas só na parte final é que realmente aparece a tribo rival, essa sim constituída de canibais. Tava feito o estrago, após esse filme começou uma série de filmes sobre índios canibais, cada vez mais apelativos, grosseiros e violentos. O próprio Lenzi acabaria investindo novamente no terreno, com obras como “Eaten Alive” e “Cannibal Ferox”. Mas foi Ruggero Deodato que mais ganhou mais notoriedade, primeiro com seu “Ultimo Mondo Cannibale" e depois com seu lendário e maldito “Cannibal Holocaust”, o mais famoso “cannibal movie” de todos.

Os canibais entram em cena efetivamente apenas depois da metade do filme. Antes temos o uso de câmera subjetiva no meio do mato, com alguns efeitos sonoros bagaceiros - isso três anos antes do “Evil Dead”. E mesmo estando numa selva apinhada de animais selvagens e tribos ferozes, nossos heróis sempre acham um tempinho para uma boa sacanagem. Deve-se salientar que aqui não há sexo explícito, apenas simulado (cenas de sexo explícito existem no já citado “Emanuelle in America”). E, ao contrário de outros “cannibal movies” principalmente os dirigidos por Ruggero Deodato e Umberto Lenzi, aqui não há um exagero de cenas de matança de animais. Na verdade só temos uma cobra que leva um tiro na cabeça (numa cena que, podemos dizer, é muito mal feita) e um chimpanzé fumando um cigarro Marlboro enquanto assiste a Laura Gemser e a Mónica Zanchi trocando caricias num banho de rio.


Os efeitos e o gore aqui são os piores possíveis. A cena em que um homem tem o corpo partido ao meio por meio de cordas é clássica de tão ruim. Seja pelos defeitos evidentes, seja pela mistura de sacanagem e tripas, seja pela cara-de-pau dos envolvidos, esse “Emanuelle and the Last Cannibals” é diversão garantida para aqueles que gostam de tranqueiras insalubres.

 

Emanuelle and the Last Cannibals / Emanuelle e gli Ultimi Cannibali / Trap Them And Kill Them (Itália, 1977) Direção: Joe D’amato Com: Laura Gemser, Gabriele Tinti, Mónica Zanchi, Nieves Navarro. Donald O’Brien, Percy Hogan, Dirce Funari.

 

Publicada originalmente no site ocafe.com.br

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